ink me

Entrei pelo estúdio adentro cheio de ganas. De álcool também. A decisão e a anestesia: uma garrafa de vodka sem laranja porque tenho medo de oxidar.

Desenrolei a folha de 2×1 onde tinha contornado o meu corpo, deitei-a na marquesa, poisei o molho de notas na mesa, pedi para me amarrarem não fosse querer desistir.

Ausentei-me e recolhi-me, imerso no que me esperava: ia tatuar-me todo, de cima abaixo, com as memórias de uma vida “Toma lá Alzheimer, já te lixei!”.

Ouvi as fivelas a fechar, a luva de latex a bater no pulso do Johny68, tatuador famoso na rua dele com os melhores Amores de mãe e Angola 74 jamais vistos. Diz quem sabe.

As agulhas zumbiram 8 horas de seguida, todo eu chaga, o Johny em transe, as putas da rua a entrarem e saírem, a apreciarem a dor em corpo alheio.

8 horas 8… e no fim, depois de tudo, depois de metido em gel e embrulhado celofane de cozinha, a Alcina grita da janela… “Psoríase está mal escrito!”.

 

O corpo dizia que…

“O corpo dizia que estava na altura de se virar. Não que me apetecesse. A dor era de alguma forma apetecível. Sentir aquele formigueiro que tolhia o lado direito era uma forma obscena de hipocrisia.

O corpo dizia que tinha saudades tuas. O corpo dizia que o enlouqueces. Eu ignorava-o. Tinha que me virar.

O corpo dizia que estava farto daquele postalinho de vida pendurado na parede imensa. Tens a certeza? perguntava-lhe eu.

O corpo… o corpo é uma farsa. Tão maior que a exposição que me levou a ver ontem. Pop Pop Super-Pop Colores. Gente e mais gente. O que tenho de suportar só para estar perto. Farsas festivas. “É uma farsa!” sussurrei-lhe. “És um caustico”. Sou um caustico.

O corpo dizia que estava na hora de sair, agora que já se tinha virado. Devagar, devagar para não ranger. Não lhe saia da cabeça o circulo branco sobre quadrado negro  pós-moderno absurdo delinquente urbano heroin chic.

O corpo dizia que… já lá vou, respondi-lhe e saí.”