Crescer com o Transporte Público

O transporte colectivo é o futuro do transporte, não tenho dúvidas disso. E de que o transporte privado terá que ser muito mais sustentável que as actuais soluções, também não tenho dúvidas.

Tenho é dúvidas sobre as formas como a coisa se promove, especialmente numa sociedade onde a vaidade do transporte privado é uma extensão do ego, por um lado, e a rede de transportes se encontra muitas vezes desadequada das necessidades, desfasada nos horários, desfasada nos preços, sem soluções interessantes para o transporte familiar, e por aqui fora.

Uma campanha destas tem que ser muito mais apelativa que a actual campanha que está a correr por aí. Não imagino ninguém a olhar para um daqueles cartazes e a dizer “É pá vou passar a ir de metro”.

Como se trata dum alinhamento internacional fui espreitar o site da UITP e vale a pena olharmos para a diferença da abordagem nas fotografias.

As nossas estão aqui:

 

Um dia vou recuperar as bicicletas velhas

Andava por aqui a navegar e dou com estas ideias para dar novo uso a bicicletas abandonadas. Se bem que em Lisboa era mais adequado um projecto para ir removendo os muitos cadeados e correntes de motas e biclas que vão ficando abandonados nos postes. Um dia chegaremos às biclas abandonadas, para já não há.

Mas isto tudo para dizer que gostava de ter espaço para me dedicar à recuperação de duas velhas bicicletas que tenho na terra natal. Duas boas pasteleiras, das antigas, das que pesam, das que têm rodas grandes e travões com um sistema de ferros e luz por dinamo. Coisas sustentáveis, com bancos confortáveis e largos onde um homem se podia sentar e pedalar kilometros a fio sem chegar ao fim do dia a desejar um calção coleante. E sobre isso não me alargo mais.

Voltemos às pasteleiras. Com uma delas tenho uma dívida de recuperação porque ficou a meio para desgosto do tio-avô que ma ofereceu. Mas além dessas ainda existem para lá outras que estão abandonadas e que mereciam melhor sorte. Enfim, triste vida e dura a de uma bicicleta.

Já sei que existem várias oficinas na cidade, uma delas, a Cicloficina dos Anjos, onde a malta pode ir a determinados dias da semana fazer os seus arranjos e recuperações. É uma ideia. Só me falta depois sitio para a guardar, esse é outro assunto, mas recordo-me das tarde divertidas entre correntes e óleo e chaves de parafusos e estas mãos precisam de fazer coisas físicas que isto de passar o dia a teclar e a tratar do virtual e do digital já deixa pouco de substância.

Portanto: resolução 2 do ano que começa (o quê já é Março?): recuperar uma bicla e pô-la em condições de andar colina acima e colina abaixo. Depois é puxar pelo cabedal porque nenhuma delas tem mudanças e algumas subidas ainda são tramadas. Mas as descidas, essas não vai haver pai porque quando embalavam era vê-los passar a alta velocidade.

Se vos der para resolução igual e se os despojos do passado forem inexistentes, há por aí muito site onde se encontram quadros de bicicletas velhas mesmo a jeito de começarem a levar com peças novas.

Paragens de autocarro

Das muitas peças de “mobiliário” urbano com que tropeçamos todos os dias, há uma que ainda não evoluiu para dar boa resposta às necessidades de quem a usa. Falo da paragem de autocarro.

As que conheço foram desenhadas por um designer que faz coisas sem deixar a secretária, sem experimentar as coisas e sem saber o que as pessoas realmente precisam. Para já deverá deixar de dizer que é designer, uma vez que esta atitude está nos antípodas.

Em oposição vejo projectos que levam a paragem para o universo do hotel de 5 estrelas, ignorando que as mesmas precisam de ser feitas em quantidade, que vão estar presentes em tipos de ruas completamente diferentes, que não podem ou devem ocupar demasiado espaço na rua, que precisam de baixa e fácil manutenção, que devem ser robustas, e ao mesmo tempo, devem apresentar algum grau de conforto e segurança na espera, protecção contra as agruras do meio-ambiente, informação actualizada e acessibilidade.

A paragem de autocarro tal como a conhecemos será uma das principais responsáveis pela desistência de uso do transporte público. Num dia de chuva, qualquer paragem de autocarro é uma bomba relógio imprópria para cardíacos, capaz de atirar com o ego mais elevado para a sarjeta mais próxima.

Posto isto, hoje encontrei um concurso muito curioso, o Seeking Shelter Design Challenge:

Imagine  how a bus stop could be designed to renew, refresh, and connect people. Would you put in a mini community garden box? Solar cells? Bookshelves for  informal book sharing? A small business kiosk?

Os concorrentes terão que ter as ideias mas também prototipar e submete-las a um júri que as vai votar e premiar. Parece-me uma excelente ideia especialmente porque acrescenta um layer novo, o de querer fazer da paragem de autocarro um elemento activo na comunidade.

E agora podemos fazer um brainstorm colectivo e informal. O que é que fariam para tornar a paragem de autocarro mais agradável, mais acessível, mais informativa, mais segura? Que elementos lhe acrescentariam? Com quem a casavam? Paragem de autocarro +  consultas de tarô? Tai chi?

Your turn 🙂

Share it!

Quando por cá andamos a defender o uso da bicicleta como solução de mobilidade, quando já começamos a ter ciclovias e ecopistas e até alguns pontos de estacionamento, quando até já temos ladrões de bicicletas, vale a pena começarmos a pensar em alguns dos efeitos secundários deste movimento e a agir antes que seja tarde.

Ser dono?

A foto deste artigo é de um dos maiores parques de estacionamento de bicicletas em Amsterdão e acreditem-me, não é o único nem é suficiente. Os passeios estão cheios delas, em muitas montras encontramos sinais de proibido estacionar, algumas ruas tornam-se insuficientes para a circulação normal de pessoas e bicicletas e estacionamento, o que retira à cidade toda a boa onda obtida com este movimento.

Sendo uma cidade de canais, encontrei muitos batelões, propriedade da “autarquia”, a servirem de estacionamento. Mas mesmo assim, e mesmo grátis, não chegam nem para metade das necessidades.

Bicicletas sim, muitas e cada vez mais, mas teremos que ser donos delas? Teremos que as ter espalhadas por todo o lado à espera de serem usadas, a ocuparem espaço público e a perturbarem a livre circulação de peões?

Partilhar?

Noutras cidades, e tomando o exemplo de Paris que me pareceu o mais eficaz, optaram pelas bicicletas partilhadas em coordenação com os transportes públicos, o que leva a que sejam necessárias menos bicicletas para servir mais pessoas, que seja necessário menos espaço para estacionamento e a que mais pessoas usem a bicicleta em trajectos de proximidade, deixando para o transporte público a parte mais complicada ou longa dos percursos.

Espalhados pela cidade encontramos pontos de estacionamento/levantamento das bicicletas, quase sempre nas proximidades das estações de metro ou nos grandes terminais de transportes. Ao longo do dia reparei que alguns carros faziam o transbordo de bicicletas entre zonas onde já havia demasiadas para zonas onde faziam falta. Não é difícil imaginar que pela manhã, e pensando em Lisboa, as bicicletas no Campo Grande estivessem em falta e no Saldanha sobrassem.

Usar, partilhando!

Quanto mais penso nas questões do consumo e na sustentabilidade do mundo, mais fico adepto das soluções de partilha, de uso comunitário e de consumo colaborativo.

Se a solução das bicicletas partilhadas pode levar a que mais gente as use juntamente com o transporte público (e ajudando a que sejam auto-sustentáveis), evitando carros em circulação, reduzindo o nosso consumo fóssil e a nossa dependência da energia exterior, reduzindo poluição, ganhando em saúde pública e na qualidade do ar que respiramos, nos benefícios pessoais pelo exercício físico diário e regular, então diria que não há outra coisa a fazer que não seja implementar esta ideia.

Ao poder local pedimos apoio institucional para que os processos de licenciamento sejam céleres e os esforços de coordenação com a rede de transportes facilitada, eventualmente até revista, dado o impacto positivo esperado.

Ladrões de bicicletas

Hoje fui roubado! Como de costume nos últimos tempos tenho andado de bicicleta diariamente e apesar de ser uma dobrável deixo-a sempre no hall do prédio, quer em casa quer no escritório, em local que não estorva ninguém mas que me facilita a vida e evita que ande sempre com a bicla ao colo.

Hoje fui roubado! À hora de almoço ainda lá estava, ao fim do dia a minha Coluer Transit Lovers branca, igual à da imagem, foi roubada. O ladrão é tão burro que cortou o cadeado e nem percebeu que me esqueci da chave no cadeado. Podia ter poupado este trabalho e já agora ainda tinha ganho um cadeado, o boi.

Se vos tentarem vender uma bicicleta igual a esta ou se virem uma à venda em situação suspeita, digam-me por favor. Já tem três anos de uso e é minha e eu gosto dela e sinto-lhe a falta e não estava nada na disposição de ter que comprar outra. 🙁

Aqui está outra fotografia dela.

p.s. deve ter ainda três coisas penduradas que a distinguem: um suporte de cadeado no garfo do guiador e dois suportes de luz, um no guiador e outro debaixo do banco (este ultimo passa bastante despercebido).

 

 

Estrada para as praias da Costa 1970? Não! Ontem!

Confesso que não sou um fã da Costa da Caparica. Nem da urbe (?) nem das praias e muito menos da forma desordenada como aquele território de elevado potencial turístico é mal tratado.

Não vou pôr-me a falar dos grandes investimentos que ficaram no papel ou engavetados, mas sim de pequenas acções capazes de mudar a nossa experiência e percepção.

Faz-me confusão chegar à Costa e desembocar num cruzamento martirizante que podia ser uma rotunda, para depois entrar numa avenida que tem rotundas de 100 em 100 metros.

Faz-me confusão que a estrada de acesso às praias se mantenha como em 1970: sem bermas, de faixas mínimas, ladeadas por bairros degradados e apresentando ao turista o pior postal de sempre. Vamos a caminho da praia ou das favelas? Nunca sei. Claro que fazer esta estrada de bicicleta, como o senhor na fotografia, deve ser um susto constante.

Faz-me confusão que o acesso a cada uma das praias seja uma estrada miserável, cheia de buracos e pedras e pó, que desembocam em estacionamentos manhosos, desordenados, caóticos. Se formos à Praia do Meco, por comparação de proximidade, temos isto tudo resolvido e com investimentos mínimos do ponto de vista das estruturas.

Faz-me confusão que tenham criado paragens de autocarro a meio de vias rápidas e ver pessoas a atravessarem troços de estrada onde o condutor já assume que não vai encontrar peões.

Faz-me confusão que aquilo seja um caos urbanístico, semi-barracas, semi-construção-clandestina, semi-casas, semi-tudo.

Afinal a Costa não é nada, é um atentado, é uma coisa a armar ao fino nuns sítios mas favela no outro. Depois de aterrarmos na praia até nos esquecemos da fealdade a que fomos sujeitos, mas como no regresso temos que passar pelo mesmo, suspiramos e perguntamo-nos como é possivel.

Não acredito que os habitantes da Costa tenham tão mau gosto e gostem das coisas como estão. Não acredito que não ambicionem um território melhor, mais bem cuidado, onde as pessoas se sintam bem do principio ao fim, sejam visitantes sejam os próprios habitantes.

Aquilo que deu origem a uma utopia de Cassiano Branco não deve viver bem com este destino.

O MUDE e as acessibilidades

À direcção do MUDE

Sou um frequentador habitual do MUDE, que muito aprecio pela qualidade da colecção, das iniciativas e do trabalho que tem sido feito, que faz dele um espaço único e merecedor da nossa melhor atenção e recomendação. Pelo trabalho feito tem desde sempre os meus parabéns.

Mas ter sido surpreendido hoje com uma questão de falta de acessibilidade a quem quer visitar o museu com um carrinho de bebe foi uma nódoa que não esperava.

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Miudos no Metro (ou nos transportes em geral)

O Metro de Lisboa vai lançar um clube com mascote destinado a sensibilizar os mais novos para a utilização dos transportes públicos. Acho muito bem. De pequenino se torce o pepino diz o povo, e o universo não é sustentável se andarmos todos montados em petróleo. E até que cheguem as alternativas ainda temos muito que penar. Mas adiante.

Aquilo que mais me “incomoda” é que esta utilização dos transportes pela família e pelos miúdos tem outra forma de ser dinamizada e isso passa pela politica de bilhetes e tarifas. Não só mas acima de tudo por aí.

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A aventura da bicicleta

Não fosse a possibilidade de alugar a bicicleta antes de comprar e as dúvidas ainda iam persistir por mais tempo. Mas os senhores da loja são simpáticos e praticam esta modalidade. E assim dei por mim a ciclar por Lisboa, ainda nos passeios e tal, mas já a pedalar. E que bom que está a ser, mesmo com alguma chuva.

Já comprei o cadeado, a bomba de ar e o capacete (um capacete de skater, preto).

E mesmo não tendo acabado ainda o fim-de-semana, posso dizer-vos que ando feliz. Ciclar é mesmo um prazer e agora já não preciso de esperar por Copenhaga para o fazer. Estão a ver que cosmopolita vos saí: ai e tal eu andar de bicicleta é mais em Copenhaga. Agora também o vou fazer em Lisboa e já ando a ver as ciclovias e os espaços mais agradáveis, onde possa levar a pita também.

É claro que Lisboa tem muitas subidas… mas a isso também correspondem belas descidas. E se ontem subi ao Bairro Alto em esforço e com ela pela mão mais de metade do caminho, também o desci com o vento nos (raros) cabelos. E alegremente passo por muitos outros ciclistas. Portanto vamos lá a deixar o preconceito e pedalar em Lisboa. Ao fim de algumas subidas já o percurso Cais-do-Sodré : Campo Grande será uma brincadeira de crianças.

E pronto… vou almoçar e dar mais umas pedaladas por aí que isto sabe mesmo bem.