O que é um blog?

Escusam de pensar que vou dissertar sobre o que é efectivamente um blog… seja o que for, é acima de tudo um espaço de escrita. Caiu em desuso? Está fora de moda? Há outras cenas? Mais curtas e rápidas? Mais light por um lado e obesas por outro? Coisas que respondem aos impulsos do dia, coisas que são uma acção/reacção mas não propriamente… um pensamento.

Não que isto que vai sair daqui se possa considerar um grande e enorme pensamento, uma ideia filosófica que vai mudar a vossa vida para todo o sempre, que vos vai fazer repensar a vossa visão do universo. Eventualmente nem a minha mudará. Mas é um pedaço de escrita. Um resto mortal de neurónios que se atiram duma testa escorregadia para um abismo raso, sabendo que não haverá vida depois da queda. Blip… bipppppppppp. Flat, totalmente flat.

O que é um blog aos dias de hoje?

Aqui deste lado gostava que fosse tanta coisa. À velocidade de um post por ano é uma especie de fanzine de garagem na gaveta. Ou uma fanzine escondida numa gaveta duma comoda atulhada numa garagem ou num sotão onde ninguém se atreve a procurar seja o que for.

Um blog é isto?

Se é, é uma enorme falta de respeito para com o dito.

E foi isto.

Como viram, não foi grande coisa.

 

fotografia by gratisography

ink me

Entrei pelo estúdio adentro cheio de ganas. De álcool também. A decisão e a anestesia: uma garrafa de vodka sem laranja porque tenho medo de oxidar.

Desenrolei a folha de 2×1 onde tinha contornado o meu corpo, deitei-a na marquesa, poisei o molho de notas na mesa, pedi para me amarrarem não fosse querer desistir.

Ausentei-me e recolhi-me, imerso no que me esperava: ia tatuar-me todo, de cima abaixo, com as memórias de uma vida “Toma lá Alzheimer, já te lixei!”.

Ouvi as fivelas a fechar, a luva de latex a bater no pulso do Johny68, tatuador famoso na rua dele com os melhores Amores de mãe e Angola 74 jamais vistos. Diz quem sabe.

As agulhas zumbiram 8 horas de seguida, todo eu chaga, o Johny em transe, as putas da rua a entrarem e saírem, a apreciarem a dor em corpo alheio.

8 horas 8… e no fim, depois de tudo, depois de metido em gel e embrulhado celofane de cozinha, a Alcina grita da janela… “Psoríase está mal escrito!”.

 

O corpo dizia que…

“O corpo dizia que estava na altura de se virar. Não que me apetecesse. A dor era de alguma forma apetecível. Sentir aquele formigueiro que tolhia o lado direito era uma forma obscena de hipocrisia.

O corpo dizia que tinha saudades tuas. O corpo dizia que o enlouqueces. Eu ignorava-o. Tinha que me virar.

O corpo dizia que estava farto daquele postalinho de vida pendurado na parede imensa. Tens a certeza? perguntava-lhe eu.

O corpo… o corpo é uma farsa. Tão maior que a exposição que me levou a ver ontem. Pop Pop Super-Pop Colores. Gente e mais gente. O que tenho de suportar só para estar perto. Farsas festivas. “É uma farsa!” sussurrei-lhe. “És um caustico”. Sou um caustico.

O corpo dizia que estava na hora de sair, agora que já se tinha virado. Devagar, devagar para não ranger. Não lhe saia da cabeça o circulo branco sobre quadrado negro  pós-moderno absurdo delinquente urbano heroin chic.

O corpo dizia que… já lá vou, respondi-lhe e saí.”